Comparações entre a USP e universidades estrangeiras: em quais termos isso faz sentido?

Por vezes, a comparação entre indicadores da USP e de universidades estrangeiras foi proposta como forma de situar a USP em contextos de gestão e modelos de universidade. As ferramentas de avaliação, no entanto, são bastante subjetivas e distorcidas pelo que entendemos como “universidades de ponta”. Os critérios para ranquear as universidades, geralmente, levam mais em conta os indicadores objetivos de produção acadêmica do que o cumprimento adequado do papel proposto por cada universidade. A proposta deste artigo é avaliar os indicadores de universidades estrangeiras e realizar uma comparação com os da Universidade de São Paulo para, assim, pensar se essas comparações são realmente úteis para entender a “desvantagem” da USP diante das universidades estrangeiras, avaliar se essas comparações podem nos ajudar a entender a atual crise financeira e pensar sobre o modelo de universidade que temos (e queremos).

Coleta de dados e seleção das universidades

O último artigo publicado no blog (http://wp.me/p50mC2-1u) enfatizou a limitação de acesso às informações sobre as políticas e despesas da USP – que descumprem a Lei Federal 12.527/2011, conhecida como Lei de Acesso à Informação. Sobre esse aspecto, nem todas universidades estrangeiras selecionadas para realizar esta análise disponibilizam os dados básicos sobre a composição da comunidade universitária e seus recursos orçamentários. Os esforços se concentraram na obtenção de dados sobre quatro variáveis: número de graduandos, número de pós-graduandos, número de professores e total de despesas. Dessas, somente o número de professores está completo para as 31 universidades selecionadas.

O objetivo era selecionar universidades de diferentes países com base na sua classificação em rankings internacionais. As líderes concentram-se somente em Estados Unidos, Reino Unido, Suíça e Canadá, motivo pelo qual o critério de seleção das instituições foi ampliado e inclui mais países. Foram confrontados diferentes índices, para diminuir o viés.

As universidades estadunidenses somam 11 casos na amostra. Também consideramos a inclusão de universidades que não pertencem à Ivy League, grupo de 8 universidades antigas e renomadas do noroeste dos Estados Unidos. Para amenizar o viés que a similaridade do modelo dessas universidades poderia causar, outras 4 universidades estadunidenses bem conceituadas foram incluídas: Caltech, Stanford, MIT e Berkeley.

Reino Unido e Canadá estariam representados por 7 universidades. Porém, as informações da University College London (Reino Unido) e da McGill University (Canadá) não foram encontradas. Assim, o Canadá passou a ter apenas 2 casos e o Reino Unido, 3.

As universidade da América do Sul, da Ásia e da Europa continental possuem problemas similares entre si. Boa parte delas disponibiliza os dados de forma incompleta. Essa foi a causa de excluirmos a Universidade de Buenos Aires e as Católicas do Uruguai e da Colômbia. As universidades japonesas possuem bons dados disponíveis, mas somam apenas 2 casos entre os selecionados.

Ordenação das universidades nos gráficos

Com o objetivo de facilitar a comparação entre os resultados obtidos e a visualização dos gráficos, as universidades são listadas de acordo com sua posição no ranking QS Top Universities, um dos critérios utilizados para seleção dos casos. Exceção será aplicada à análise do número de alunos. Dada a grande disparidade no número de matriculados, a ordenação dos casos será realizada com base no tamanho da comunidade acadêmica e separada em dois gráficos para facilitar a visualização.

A lista completa de universidades e a posição no ranking é apresentada na tabela abaixo:

Posição no ranking QS Top Universities País Universidade
1 EUA MIT
2 EUA Harvard
3 RU Cambridge
5 RU Imperial College
6 RU Oxford
7 EUA Stanford
8 EUA Yale
10 EUA Caltech
10 EUA Princeton
13 EUA Pensilvânia Univ.
14 EUA Columbia
15 EUA Cornell Univ.
17 CAN Toronto Univ.
25 EUA Berkeley
32 JAP Toquio Univ.
35 JAP Quioto Univ.
46 CHN Pequim Univ.
47 EUA Brown Univ.
48 CHN Tsinghua Univ.
49 CAN British Columbia
50 ALE Heidelberg Univ.
53 ALE Técnica de Munique Univ.
65 ALE Munique Univ. (LMU)
71 SUI Genebra Univ.
78 SUI Zurique Univ.
112 FRA Sorbonne
127 BRA USP
166 CHI Católica Univ. – CHI
215 BRA UNICAMP
223 CHI Chile Univ. de
601 URU La República Univ.de

Comunidade universitária

As primeiras observações se referem ao número de alunos relatados por cada universidade. Os casos foram separados de forma a montar dois gráficos, sendo um para instituições com menos de 15 mil graduandos e outro para instituições com mais de 15 mil, conforme justificado acima.

Gráfico 1a

Gráfico 1b

É preciso precaução ao comparar os dois gráficos por conta da escala. O Gráfico 1a vai de 0 a 20 mil alunos, ao passo que o Gráfico 1b vai de 0 a 110 mil alunos. Dito isso, observemos as principais diferenças entre os dois grupos. Em primeiro lugar, é evidente a diferença de localização geográfica entre as universidades de um gráfico e de outro. O Gráfico 1a concentra o grupo de universidades estadunidenses, – com exceção da Berkeley (EUA) – todas as britânicas e todas as japonesas. Do outro lado, no Gráfico 1b, estão todas as universidades sul-americanas, as chinesas, as canadenses e as da Europa continental, com exceção da Universidade de Genebra (SUI). Ou seja, apenas duas das trinta e uma universidades selecionadas escapam do padrão geográfico citado. Outra regularidade se refere à posição no ranking de qualidade. Das dezesseis universidades que compõem o Gráfico 1a, apenas a Universidade Brown (EUA) e a Universidade de Genebra (SUI) não figuram entre as dezesseis mais conceituadas da amostra. Por último, é importante ressaltar o nível de formação dos alunos. Sete universidades do Gráfico 1a possuem mais pós-graduandos do que graduandos, sendo que apenas a Universidade Tsinghua apresenta esse quadro no Gráfico 1b.

O gráfico 2 apresenta o número de alunos por professor. Nesse caso, a diferença dos resultados entre as universidades consideradas melhores e piores é menos drástica. Nas quinze primeiras colocadas da amostra há, em média, 9,9 alunos por professor, com destaque para Cambridge e Yale, cada uma com menos de 3 alunos por professor.

Gráfico 2

A média para o segundo grupo, das dezesseis universidades menos bem colocadas no ranking internacional, por sua vez, é de 20,8 alunos-professor. Essa diferença de médias, no entanto, ainda não nos permite identificar diferença de modelo de gestão das universidades, pois as instituições alemãs apresentam uma relação muito discrepante na relação alunos-professor e puxam para cima a média das menos bem avaliadas. Excluindo-as do cálculo, as universidades piores colocadas passam a ter média de 12,4 alunos por professor, diferença pouco expressiva diante dos 9,9 alunos-professor observados no primeiro grupo.

Despesas orçamentárias

Em média, as universidades que compõem a amostra realizam 2,01 bilhões de dólares em despesas anuais (a média está representada pela linha vermelha do Gráfico 3). Olhando os valores brutos, volta a se evidenciar a diferença de padrão entre as universidades mais bem conceituadas e as menos bem conceituadas, diferença essa mais relevante do que a da relação alunos-professor. Todas as universidades sul-americanas e da Europa continental realizam despesas abaixo da média da amostra e, das sul-americanas, apenas a USP não apresenta menos que a metade da média. A Universidade de São Paulo possui o décimo segundo maior montante de despesas da amostra, 1,76 bilhões de dólares por ano.

Gráfico 3

Dividindo o montante total de despesas pelo número de alunos, a distribuição dos resultados apresenta ainda mais disparidades. O padrão de resultados por localização geográfica observada nos Gráficos 1a e 1b é novamente observada no Gráfico 4.

Gráfico 4

As universidades estadunidenses representam o modelo mais discrepante, sendo que, delas, a Berkeley apresenta a menor relação despesas-aluno e é a única que foi ultrapassada por universidades de fora dos Estados Unidos. Da Universidade Cornell (EUA) em diante, as colunas de despesas por aluno são muito pequenas, não mais ultrapassando 100 mil dólares anuais. As universidades do Reino Unido representam a única exceção do gráfico, pois gastam muito menos por aluno do que as universidades estadunidenses e, ainda assim, figuram entre as 5 melhores posicionadas no ranking. Entre as sul-americanas, nenhuma chega aos 30 mil dólares anuais por aluno. As japonesas, a British Columbia (CAN) e suíças passam a indicar um modelo intermediário entre os dois extremos, ao passo que as da Europa continental e a Universidade de Toronto (CAN) voltam a se aproximar do modelo observado nas sul-americanas.

Como esses números podem nos ajudar? Se seguirmos os modelos “de ponta”, seremos gloriosos?

Os dados acima indicam que a comparação entre as universidades ao redor do mundo não faz tanto sentido se pensarmos apenas nas avaliações de excelência dos rankings internacionais. A diversidade de resultados alcançados parece não estar ligada exclusivamente com recursos orçamentários ou tamanho das comunidades acadêmicas, mas sim com modelos de gestão. De um lado, temos universidades com melhor avaliação. São as que apresentam muitos recursos orçamentários, total de alunos menor e com número similar de graduandos e pós-graduandos. Do outro, temos avaliações piores. São as que apresentam menos recursos orçamentários, muitos alunos e com mais matriculados em cursos de graduação do que de pós-graduação. Parece pouco razoável pensar apenas em termos de rankings internacionais sem que os objetivos e missões das universidades com a sociedade, que impactam diretamente nos números que observamos, sejam avaliados – tarefa que também não fomos capazes de cumprir aqui.

O modelo de gestão da USP e os resultados acadêmicos alcançados estão longe de explicar a atual crise. Entender a atual crise passa pelo entendimento do que somos, por que somos, do que queremos e em quais pontos, dentro do modelo assumido pela USP, estamos com problemas de gestão. Não se trata de amenizar a baixa posição da USP nos rankings internacionais ou de afirmar que há (ou não) necessidade de mais repasses do Tesouro do Estado. Os papéis da USP – como a devolução dos investimentos públicos à sociedade civil em forma de conhecimento, responsabilidade na gestão dos recursos, grau de inclusão social nos cursos de graduação – são compromissos necessários e devemos nos nortear por eles quando buscamos diagnosticar as origens da crise financeira.

Usar Harvard, Princeton, MIT, Oxford e demais como parâmetro de comparação é pouco construtivo. A USP está situada em outro contexto e, pelos resultados que encontramos, parece buscar objetivos diferentes. Se quisermos entender a diferença entre o nosso desempenho e o de outras universidades precisamos saber, antes, com qual tipo de universidade estamos comparando, seus objetivos, modelo de gestão e, principalmente, situá-la em seu contexto pra que a comparação entre números soltos não seja tomada como a comparação entre fatos inquestionáveis que indicam eficiência ou ineficiência.

Gráficos 4: Docentes, funcionários e relação com número de alunos da USP desde 1989

Entre os fatores que podem ter contribuído para a crise financeira atual da USP, dois que são sempre lembrados pelo novo reitor e por outras autoridades da universidade são a expansão do quadro de funcionários e a explosão recente de salários. Aqui nós abordamos o primeiro ponto, do aumento numérico de funcionários e de professores. Assim, damos continuidade à proposta de analisar os dados oficiais da USP e pensar sobre a crise financeira.

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É possível reparar, nos gráficos que enviamos aqui, que desde 1989 o número de professores, na verdade, se mantém basicamente o mesmo. Já o número de funcionários cai até 2000 e depois começa apenas a recuperar, lentamente, o que havia em 1989. Considerando o que vimos nos gráficos enviados ontem, isto é, que houve considerável aumento do número de alunos, os gráficos de hoje mostram que isso não se verifica para docentes e funcionários.

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Ao mesmo tempo, na verdade, é possível notar que o crescimento proporcional da verba repassada pelo Estado para a USP (em valores corrigidos para maio/2014 pelo IGP-FGV) foi bem superior à evolução proporcional do número de professores e funcionários. Isso mostra que, proporcionalmente, não houve explosão alguma de número de professores ou mesmo de funcionários. Ainda assim, esses dados não bastam para averiguar se houve explosão de gastos com pessoal.

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Finalmente, podemos avaliar um dos argumentos mais recorrentes sobre a crise financeira da USP: a relação entre alunos e docentes e aquela entre alunos e funcionários. A terceira figura apresenta essas razões para o período 1986-2013. Não houve a explosão proporcional do número de funcionários, de forma que a razão entre alunos e funcionários era de 3,9 alunos por funcionário em 1986, oscilou durante o tempo e chegou ao atual patamar de 4,9 alunos por funcionário.

Por outro lado, a relação alunos/docentes, que já era de praticamente 10 alunos por docente em 1986, praticamente só fez subir durante o período observado, variando apenas na intensidade. Em 1995, com a explosão do número de pós-graduandos (como mostramos ontem), essa relação subiu para 11,5 alunos por docente, e a proporção continuou subindo até o patamar atual, de 14,3 alunos por docente. Por isso, é fato que o número de alunos tenha crescido muito mais intensamente do que o número de docentes nos últimos 20 anos.

Entretanto, ainda falta entender como entram nessa conta os contratos de terceirização de serviços como limpeza e segurança, como se deu a expansão da área construída e do número de cursos e unidades da USP no período, e como as receitas e despesas se distribuem entre tudo isso. Esses são assuntos para os próximos posts.

Gráfico 3: Graduandos e pós-graduandos desde 1989

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O primeiro gráfico apresenta o número de alunos de graduação e pós-graduação para o período 1989 – 2013. É possível notar que em 1995, ano no qual ocorreu o último aumento na alíquota de ICMS repassada à universidade, houve um forte aumento no número de alunos de pós-graduação, de 14 mil para 20 mil alunos. O mesmo, no entanto, não ocorreu na graduação, que manteve-se no patamar de 73 mil alunos em 1995, muito próximo do que já era observado nos anos anteriores. O aumento mais significativo da graduação ocorreu entre 2001 e 2008, que pulou de 78 mil para 109 mil alunos.

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Ainda que o número bruto de alunos na graduação tenha crescido muito, o aumento na proporção de alunos em pós-graduação (147%) da USP entre 1989 e 2013 foi muito superior ao da graduação (47,7%), conforme mostra o segundo gráfico. O principal período que marca essa discrepância teve início justamente quando a USP passou a receber 5% das receitas de ICMS, com crescimento imediato dos programas de pós-graduação e continuidade da estagnação no número de alunos de graduação até 2001. O crescimento da pós-graduação entre 2001 e 2013 foi de 24%, mas não é possível indicar que essa proporção de crescimento mais modesto nos últimos 12 anos reflita políticas de prioridade à graduação, pois os programas de mestrado e doutorado passaram por evolução praticamente ininterrupta nos últimos 19 anos (a maior queda foi de 0,002%, em 2002).

O aumento no valor correspondente às verbas de ICMS (corrigido pelo IGP-FGV para valores de maio/2014), indicado pela linha vermelha tracejada, foi de 57%, superior ao observado para alunos da graduação e muito inferior ao observado para a pós-graduação.